Em uma conversa franca, Ivete Sangalo concede entrevista a Playboy. Confira na íntegra!


 


Ivete Sangalo refestela-se na poltrona de couro marrom-claro de seu jatinho particular, um Citation Excel avaliado em 10 milhões de dólares, e finalmente tira o escarpim de salto alto. “Foi o Érico Veríssimo quem disse que felicidade é usar um sapato menor do que o pé e tirar no fim do dia?”, pergunta. Ninguém sabe responder. É quase meia-noite do dia 9 de outubro, e durante todo o dia ela havia enfrentado uma maratona de entrevistas por causa do lançamento de seu mais recente disco, Real Fantasia, com tiragem inicial de 80 mil cópias pela gravadora Universal. Na poltrona em frente a ela, Dito Espinheira, seu assessor pessoal, estira as pernas. O conforto dura pouco. Logo Ivete põe os dois pés sobre os joelhos de Dito, abre uma sacola, tira de lá um hidratante francês, entrega o frasco ao moço, e, de pronto, ele começa uma massagem silenciosa por entre os dedos da cantora. Enquanto recebe o afago, ela checa seu Instagram. 


O piloto faz as primeiras manobras na pista do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos (SP). Quando ela recebe um exemplar da PLAYBOY com Leona Cavalli na capa, larga o celular. “Ficou muito sutil. Que bonito!”, elogia ao ver as fotos da colega de elenco da minissérie Gabriela. Na trama, Ivete interpretou Maria Machadão, dona do cabaré Bataclan, numa experiência que a faz pensar inclusive em seguir a carreira de atriz. “Meu grande tesão é a música. Mas atuar foi uma das melhores coisas que fiz nos últimos tempos”, afirma.

Ivete Maria Dias de Sangalo, 40 anos, nasceu em Juazeiro (BA) e é a caçula de seis filhos. Começou sua carreira artística em 1992, cantando em bares de Salvador. Era uma forma de complementar a renda da venda das quentinhas feitas por sua mãe, a dona de casa Maria Ivete. Depois da morte do pai, o vendedor de joias Alsus, em 1988, a família começou a passar por dificuldades financeiras. Ivete e os irmãos tiveram de trabalhar. Em 1993, Ivete foi convidada a integrar a Banda Eva, no auge do axé. O estouro veio rápido. Quatro anos depois, a revista VEJA publicava um perfil elogioso da moça: “A cantora que hoje mais vende CDs no Brasil vem da Bahia, se chama Ivete Sangalo e tem 25 anos. Como se não bastassem a voz, muito afinada, e o ritmo, de um vulcão, Ivete Sangalo, vocalista da Banda Eva, é uma dessas belezas fulgurantes que a música popular brasileira produz uma vez por década: 1,76 metro de altura, 63 quilos, o corpo bem desenhado, pernas de tirar o fôlego, um rosto suave e belíssimos cabelos negros”.

Em 1999, Ivete já era muito maior do que a Banda Eva. Saiu do grupo e lançou-se em uma carreira solo que é das mais bem-sucedidas da história musical brasileira. Na sequência, gravaria dez discos, venderia mais de 7 milhões de CDs e DVDs, se tornaria garota-propaganda de mais de 30 marcas e emprestaria seu nome para produtos licenciados que vão de sandálias a lingerie, passando por perfumes e roupas. Ivete também tem uma produtora, a Caco de Telha, na qual mantém um time de 40 funcionários. Isso sem contar os 36 prestadores de serviços que a acompanham na estrada, durante os shows, de onde vem a maior parte de seu dinheiro. Ivete não revela números, mas estima-se que o cachê de suas apresentações não saia por menos de 1,2 milhão de reais – fora o ressarcimento das despesas com seu jatinho. No ano passado, a cantora casou-se com o nutricionista Daniel Cady, 26 anos, com quem tem o pequeno Marcelo, de 3.

Dois pilotos revezam-se no controle do manche da aeronave da cantora. Erieu Camargo foi comandante da Gol antes de virar funcionário de Ivete, dois anos atrás. Claudio Ribeiro, o Cacau, está com ela há 12 anos – antes trabalhava em uma companhia de táxi aéreo. No voo de São Paulo a Salvador, após uma coletiva de imprensa, Camargo e Cacau ultrapassaram, em alguns momentos, a velocidade de cruzeiro – quando isso acontece, o jato dispara um alerta sonoro. Invariavelmente Ivete toma um susto ao ouvir o barulho. “Quando apita, o piloto volta pra velocidade certa. Assim eu espero…”, disse à jornalista Adriana Negreiros, da PLAYBOY, que a acompanhava no voo. 

A repórter não estava nervosa, mas Ivete tentou acalmá-la quando o avião começou a sacolejar. “É só uma nuvenzinha.” A repórter manteve-se tranquila – as 5 horas de espera pela cantora ao lado dos pilotos fizeram com que a jornalista passasse a confiar nos dois. Ivete começou a gritar. “O que é isso, Cacau? Você não disse que eram umas nuvinhas?!? Ai, papai!”

Espera, você está de verdade com medo do avião? Depois que pari eu não sirvo pra mais nada. Meu amor, você não sabe o que eu passo aqui dentro… [O jatinho sacoleja mais forte.] Cacaaau! [Da cabine, o piloto diz: “Não é nada”.] Não é nada o caralho, meu irmão! Buceta! Aaaai, Cacau, filho duma romba!

Engraçado, porque você tem pinta de mulher valente… Jura??! Ui, ui, ui…

De brava mesmo, dessas que são capazes de entrar numa briga. Ôxe… E você, não é, não?

Bem, depende. Você já bateu em alguém numa confusão? Mas foi em defesa, não foi no ataque. Estavam batendo em Marcos, o irmão que eu perdi [ele morreu atropelado dois anos depois desse episódio]. Ele era goleiro de um time. Eu tinha uns 14, minha irmã Cíntia tinha 17, e ele, 19. Ele era bem estourado e xingou o juiz. O juiz ficou puto e marcou um pênalti. Aí ele pegou a bola e disse: “Não vai ter pênalti”. Ele era bem ousado. Então o valentão do outro time já chegou sacudindo o meu irmão. Começou uma briga, e o time adversário inteiro foi pra cima dele. Eu olhei pra Cíntia e disse: “E aí?”
E aí? Aí, minha irmã, partimos pra cima… Quem tinha cabelo foi parar aqui, ó [aponta para a palma da mão]. Fui no pescoço. Era cada murro! [Risos.] Eu era aficionada por esse meu irmão. Mas, que eu me lembre, foi só dessa vez.

Você também deve ter levado uns bons murros nessa briga, não? Tomei. Mas, na raiva, quem sente? A adrenalina tava torando!

E brigar com amiga por causa de namorado, já? [Indignada.] Você acha?!? Não, meu amor. Só se eu bater no namorado, mas, na menina que o paquerou…? Se um homem lhe paquerar na rua, abrir o peito e piscar o olho, você vai dar ousadia pra ele? Vai dar seu telefone pra ele? Vamos, me diga!

Bem, não. Então é isso!

Isso quer dizer então que traição é imperdoável? Eu acho que a traição pode desencadear uma série de outras falhas. Eu tô falando de honestidade. Melhor dizer: “Bicho, isto aqui tá uma merda. Vamos dar um tempo. Eu quero estar com outras pessoas”.

E se for uma traiçãozinha por esporte? Então, meu amor, vai jogar em outra quadra de tênis! Que esporte, rapaz?!? E casamento aberto, aonde? Casamento aberto pra mim é quando deixam a porta da igreja aberta pra entrarem os convidados.

Alguns psicólogos dizem que trair o desejo é pior do que trair o parceiro. Pelo visto, você não concorda com isso, certo? Ah, é? E por que o arrependimento é tão intenso? Essa estatística ninguém lhe contou, né? Sei que existe essa filosofia. Mas, para as pessoas de caráter, é melhor você dizer à pessoa: “Vou dar um tempo e, se sentir saudade, eu volto nem que tenha que lhe dar o Sol, a Lua e o mar”. Isso é muito mais coerente com o seu desejo, que me desculpem os teóricos.

Você é ciumenta a ponto de checar as mensagens no celular do seu marido? Deus é mais! Não tenho tempo pra isso, não, minha filha. Ôxe… Ficar checando o celular de Daniel…

Umas notinhas que saíram em sites de fofocas dizem que ele estaria enciumado com a sua atuação em Gabriela. Coitado de meu marido… Ele diz: “Meu amor, quanto tempo é do Rio pra cá?” Eu respondo: “Meu amor, eu estava em São Paulo. Passei a semana lhe dizendo que iria pra lá”. Eu viajei pra fazer um show, e ele disse: “Meu amor, boa sorte lá em Gabriela”. Eu falei: “Meu amor, acabou Gabriela”. Como é que uma pessoa dessas vai sentir ciúme da outra? Isso é conversa, mulher.

Por causa de seu papel em Gabriela, você declarou que “toda mulher é quenga”. Como assim? Você é casada com homem ou mulher?

Com homem. Quando você está com seu marido, existem barreiras sexuais entre vocês? Vamos, me diga!

Era a isso que você se referia? Sim. Quando eu digo “toda mulher é quenga”, é na jurisprudência em que cabe aquilo; dentro de quatro paredes, com o homem dela. “Ai, não vou tirar a minha roupa…” “Então, minha filha, não venha para o meu quarto.” A quenga fazia acrobacias na cama, seduzia, usava lingerie. São coisas que nós conquistamos. Os homens daquela época não podiam aceitar que a mulher fizesse um striptease para eles, mas admitiam que as quengas fizessem. No fundo eles queriam que as esposas fossem as quengas. E as esposas também queriam! Era apenas um conceito social. É como eu dizer que toda mulher é quenga e alguém se assustar porque todo mundo sabe que lá no quarto joga duro, faz cara de sensual, joga a perna pra cá e pra lá.

Entre quatro paredes vale tudo? Sim. Mas tem de ser bom para os dois lados. Cabe a quem está ali dentro compartilhar. Isso é bom, isso não é, vamos pirar, não vamos pirar, hoje é só um pequeno romance porque estamos cansados, mas amanhã teremos uma noite de loucuras, hoje vamos beber até cair, vomitar na cama… Sei lá!

Você leu 50 Tons de Cinza? Tô pra ler, já me falaram tanto… Por quê?

Porque é um livro erótico que tem feito sucesso entre as mulheres. É legal?

Hum, a narrativa às vezes é envolvente… Mas não é Fórum, não, né? Fórum Ele Ela [seção da antiga revista Ele Ela com contos pornográficos]?

É meio isso. Eu adoro! Meu pai comprava a revista, eu e meus irmãos líamos e não piscávamos nem os olhos. Ôxe! Pré-adolescente, os hormônios torando, e a gente ali. Podia cair o mundo.

Mas liam juntos? Meio constrangedor, não? Líamos juntos. Não tinha mistério, não. Eram quatro homens em casa, meu pai e três irmãos. Então esse negócio de sexualidade não era uma coisa “oh!” A gente via homem nu dentro de casa desde pequena, aquilo era uma coisa tranquila. O assunto sexo era muito em voga porque meus pais eram bem sexuais. A gente ouvia a transa do quarto. A cama quebrava, mamãe gritava.

Eles eram animados, não? Pô, a gente morava junto! Os caras iam foder onde? Na rua? No playground? Não. A gente ouvia aquilo ali. E meus irmãos mais velhos tinham namoradas…

E também transavam gritando? Não dentro de casa. Mas eles comentavam muito sobre sexo entre eles.

Nunca teve aquele lance de os pais recomendarem a você que se casasse virgem?Não dessa forma explícita. Eu só me recordo de minha mãe dizendo assim: “Sexo é saudável, faz bem para o corpo e para a autoestima, mas é preciso ter responsabilidade. Você quer ser a menina falada da turma? Se isso for compatível com a sua liberdade interior, eu não vou estar nem aí. Ou você prefere ser a menina que todo mundo disputa pra ficar? Pra mim, tanto faz. É uma decisão sua”.

Sua mãe era moderna, hein? Não, ela só tinha uma postura honesta. Ela dizia: “Você segura a onda de chegar a uma festa e encontrar quatro caras com quem se relacionou intimamente? Se você segura, tudo bem”.

Seu pai também pensava assim? Painho? Ele tinha ciúme, mas não fazia nenhum comentário. Mas, veja: mesmo sabendo de todas essas coisas, aos 15 anos eu ainda não sabia que o namorado enfiava a mão na calça ou no peito da namorada. Não sabia que as meninas da minha idade se pegavam com os carinhas e eles abriam o sutiã delas.

E como descobriu? Uma pessoa do meu núcleo familiar me disse isso de forma muito irresponsável. Eu e uma prima estávamos encostadas em um carro, na esquina da nossa rua, cada uma com seu namorado. Eu e o meu namoradinho saíamos, tomávamos sorvete, pegávamos onda, e eram aqueles beijos calieeentes. Aí estava eu encostada no carro com ele, abraçada de frente, quando essa pessoa viu a cena e falou: “Pra casa, agora!” Quando chegamos lá, ela nos botou em um lugar e disse: “Não deixem que eles enfiem a mão na calça de vocês! Não tirem o sutiã!” Foi um choque pra mim. Eu me lembro como hoje. “Quer dizer que ele vai abrir o meu sutiã?” Aí fui conversar com minha mãe.

E o que ela disse? “Não se assuste. Isso vai acontecer quando os dois quiserem.” Minha mãe era foda. Eu me lembro dela tomando anticoncepcional para não sangrar, olhe só! Ela já tinha ligado as trompas, mas tinha uma TPM de quebrar a casa. Ela dizia pra mim: “Eu dei sorte com seu pai porque casei virgem e encontrei um homem bom de traço”.

Pelo menos é o que ela achava, já que não tinha referência… Não, minha filha, o negócio ali era confuso. Eu tinha uma vergonha da porra. Eles se beijavam em casa de língua.

Quando perdeu a virgindade, você contou para a sua mãe ou para as amigas? Foi tão tarde… Não me lembro de ter contado pra ela.

Com quantos anos? Ah, você tá querendo saber demais. Bicho, foi tarde demais. Não tinha mais essa fofurinha de contar.

Mas quão tarde? Eu já era mulher, tinha consciência do meu corpo. Estava amadurecida para compartilhar comigo mesma, só. Foi com um namoradinho fofo, mas não foi “eu te amo”, romance, nada disso. Isso aconteceu com minhas irmãs também. Elas também foram mais velhas. E, quando converso com minhas amigas, todas aos 16, 17, falo: “Porra! Jura?!?” Mas, no que se refere à minha mãe, ela tratava tanto os assuntos sexuais quanto os outros com naturalidade. Quando a gente passou necessidade de dinheiro, ela disse: “Não tem problema, a gente trabalha”. Se eu queria ir para uma festa e não tinha dinheiro pra comprar uma roupa, ela fazia. E dizia: “Não sinta vergonha porque quem tá fazendo a sua roupa é a sua mãe”. Era no esquema “no drama”.

O que aconteceu exatamente para vocês ficarem sem dinheiro? Meu pai era autônomo, vendia joias. Mas o ouro entrou em crise, ficou caro demais, e ele passou a vender Micheline, que era joia banhada a ouro. Dez correntes de Micheline equivaliam a uma que ele vendia de ouro. Então meu pai tinha de trabalhar dez vezes mais. E o bicho pegou. Material escolar era herdado. Quando ele morreu [de infarto], minha mãe ficou com seis filhos. A herança era o apartamento, nada mais. Vendemos o imóvel para comprar outro menor e, com o dinheiro que sobrou, pensávamos em investir em algo. Mas veio o Plano Collor [que promoveu o confisco da poupança], e crau! Sabe o que é ficar sem dinheiro? Ficamos assim.

Como vocês se viraram? Aí, minha irmã, foi um perrengue. Comecei a trabalhar em loja. Minha mãe decidiu fazer quentinhas pra vender na rua. Eu e minha irmã comercializávamos na rua, na floricultura. Era uma vitória quando a gente garantia o almoço e a janta. Depois comecei a cantar em bar e dei uma sortona, sacou? Pintou a Banda Eva, aí caí pra dentro.

Você já passou dificuldades com grana e hoje tem muito dinheiro. Às vezes dá um nó na cabeça? Leva esse assunto para a análise? Eu faço terapia tem uns 15 anos, mas é mais pra dar uma desopilada. Porque às vezes é meio contraditório. Tudo leva a crer que minha vida não é normal. A minha vida profissional é muito grande, é show, televisão, isso mexe com o lúdico. E criam-se mitos, imaginam-se coisas, quando na verdade a minha vida é normal. E também falo com o terapeuta sobre meus medos. Perdi meu pai, minha mãe e meu irmão. Foram perdas muito significativas. Tenho medo de perder as pessoas que amo.

De vez em quando você se surpreende com o próprio sucesso? Eu acho massa ter uma profissão que me dá muito prazer. Penso nisso quase diariamente. Esse é um pensamento que me faz não ficar cansada, exausta ou vitimada. E também não remo contra mim. Por exemplo [fala em tom blasé]: “Aaaai, entrevista pra Playbooooy? Diga, querida…” Só pra fazer a linha, sabe? Não acho que deva pensar assim por ser uma artista famosa.

Onde está o seu dinheiro? Eu diversifico. Aplico bastante em imóveis de revenda. Mas detesto lidar com isso. Faço reuniões esporádicas de instrução desses tipos de aplicação com especialistas. O cara vai na minha casa e expõe, por exemplo, que nos últimos três anos a aplicação tal foi a mais rentável. Aprendi um negócio chamado Cri [Certificado de Recebíveis Imobiliários] que é show. É uma parada muito doida. Se eu explicar você vai dizer que eu sou cricri. Mas é muito chato.

Algumas mulheres famosas contam situações pitorescas envolvendo dinheiro. Por exemplo, há quem narre a história de um bilionário que ofereceu a ela uma fazenda em Goiás em troca de uns beijinhos. Que papo é esse de trocar fazenda por beijinho?!?

Não vou ser indiscreta, mas há quem conte histórias assim. O nome disso é game, gata. Oxente! Isso não é conquista, é troca de indulgências. Eu lhe dou uma fazenda, e você me dá uns beijinhos?

Beijinho é uma forma sutil de me referir a uma noite de sexo. Não, meu amor. Minhas fazendas, meus boizinhos, compro eu. Aonde que um cara vai oferecer uma fazenda pra se deitar comigo?!? Eu dou-lhe um tapa no pé d’ouvido!

Viu como você é valente? Não é questão de valentia. O homem chega pra você e diz: “Olha, eu vou lhe dar uma fazenda pra você dormir comigo esta noite”. Vá catar cebola, meu irmão! Me respeite, ôxe!

Você tem um alerta do Google News para quando sai uma fofoca a seu respeito?Deeeeus me livre! Google News é um negócio que seu nome sai e ele apita?

Bem, sim. Minha filha, aí sai lá “marido de Ivete é ciumento”, eu faço o quê? Choro? Ôxe… No meu escritório a gente faz um arquivo com as notícias importantes. Mas, fofoca… Se fosse tudo verdade, eu já teria comprado tantos apartamentos neste mundo… Eu tenho pra mim que tem alguma coisa errada, que tem uma gangue usando o meu nome porque é apartamento no Rio, em São Paulo, em Miami… Outro dia Mônica me ligou sobre isso.

Mônica? Mônica de Xuxa! [A empresária Mônica Muniz.] Mônica me perguntou: “Você tá comprando uma fazenda em Araras?” Eu disse: “Eu tô comprando araras? Mas são araras-azuis?”

Por falar em Xuxa, uma das fofocas mais recorrentes a seu respeito é que você e ela teriam tido algo a mais. Você se preocupa em desmentir boatos assim? Não, porque não muda nada. Por mais que eu desminta, não vai ser suficiente para suprimir essa necessidade do boato que vende. Como é que eu vou dizer: “Minha gente, nunca transei com Xuxa”?!? Eu tenho vergonha de ter de falar isso.

E como surgiu esse boato? É porque a gente é muito amiga há anos. É uma das grandes amigas que tenho até hoje. A gente se abraça, se beija, e ela é muito dengosa, né?

Hã? Dengosa! Uma figura maravilhosa, amiga pra pau, pedra, chuva e sol. Ali não tem esse negócio de “meu pé tá doendo”; o negócio é “eu vou, eu faço, eu quero”. Eu acho essa questão muito leviana porque uma mulher se relacionar com outra é extremamente natural. Quando uma mulher ama outra, isso tem de ser respeitado. E o assunto é tratado de forma pejorativa. São vários problemas que uma fofoca dessas traz. Primeiro porque ela é minha amiga. Segundo porque eu não sou lésbica. Mas, se eu fosse, isso teria de ser respeitado. É que nem você me perguntar assim: “Ivete, você já teve um caso com…?” Diga um nome aí.

Claudia Leitte! Você quer o quê? Criar um harém de mulheres pra mim?!?

Ah, tem de ser um homem?!? Tudo bem, vamos ficar com o Cacau, o seu piloto. Pois é, Cacau. Uma fofoca dessas não dura porque não é encarada do ponto de vista pejorativo.

Mas, ainda sobre a Claudia Leitte: outra fofoca diz que vocês se odeiam. É a mesma coisa. Aparece Claudia, uma cantora baiana, a voz lembra a de Ivete. Aí Ivete não diz nada contra ela. Mas alguém precisa criar uma briga entre essas duas mulheres. E, porra, Ivete não fez nada, não disse nada! E o tempo de carreira de Claudia Leitte é todo respondendo sobre isso. É uma chatice. Toda coletiva que ela faz, alguém tem de perguntar: “Você e Ivete são amigas?” Se ela disser “somos amigas”, vão dizer que não somos porque nunca fomos juntas ao cinema. Agora a gente vai fazer o quê? Uma pauta sobre isso?

Já propuseram isso? Uma matéria com fotos de vocês duas abraçadas? [Irônica.] Abraçadas, é? Aí o pessoal vai dizer que a gente tá, ó… [Esfrega um dedo indicador no outro.] Você sabia que Vanessa da Matta é muito minha amiga? Ninguém sabe. Ela conhece o meu filho, eu conheço o filho dela, é minha amiga de falar no telefone, sentir saudade, frequentar a casa. Mas isso nunca saiu numa revista talvez porque não seja uma notícia atraente para a fofoca.

De uma forma geral, como é o seu relacionamento com a imprensa? É ótimo. Não tenho nenhum problema, de verdade. Acho que essas coisas aí são parte do negócio.

Nem com os paparazzi? Eu digo assim: “É paparazzo? Então deixa eu me ajeitar. Aparecer feia em foto de paparazzo é que não dá”. Sei quem são todos pelo nome. Estão fazendo o trabalho deles. Vivem disso, de tirar foto. Não só como paparazzi, mas também como fotógrafos de casamento, de aniversário. Eles trabalham pra caramba. Eu adoro os meus paparazzi, mas eu digo a eles: “Olhe, se eu sair feia, vou queimar você na praça!”

Em setembro de 2010, quando você fez o famoso show no Madison Square Garden, em Nova York, o crítico de música do jornal The New York Times escreveu que havia duas barreiras para a sua carreira decolar no exterior, o idioma e o ritmo. Você se chateou?Não. Pelo ponto de vista dele, talvez ele tenha razão. Mas, pelas minhas perspectivas de uma carreira internacional, ele está completamente equivocado. Então eu tenho de chegar nos Estados Unidos fazendo yo, yo, yo [faz movimento com os dedos ao estilo do rap], chamo dez rappers, boto um casaco… [Canta.] “Tonight forever, whenever, yo, yo…” É isso? Mas o cara que tá lá pra ver Ivete é fã de Ivete. Ele não tá preocupado se eu vou fazer carreira internacional. Aí eu vou fazer yo yo yo? Nãããão. Cadê Dalila? Cadê o samba-reggae?

Qual é a sua perspectiva da carreira internacional? Eu não quero estar em primeiro lugar nas paradas americanas, não quero ser o disco mais vendido dos Estados Unidos. Eu quero ir pra lá fazer um show para o meu público, não para aqueles que não querem ouvir o meu som, sacou? Render-me a outro som seria uma loucura. Só posso fazer uma carreira nos Estados Unidos se eu cantar em inglês e me adequar ao ritmo deles?!? Não, porque, quando o U2 vem ao Brasil, eles não tocam nenhum enredo de escola de samba.

Bom, o mesmo New York Times disse que você era uma das favoritas ao Prêmio Grammy Latino, para o qual foi indicada. Você está confiante? Já fui indicada, meu amor. Beijo pra você! Eu quero é ir pra festa, cantar pra Caetano, curtir.

A cantora Marina Lima vai lançar um livro em novembro, Maneira de Ser, em que escreve que você é a cantora mais popular que o Brasil já teve. Você concorda com ela? Veja bem, eu sou uma cantora muito popular. Talvez eu não saiba dimensionar isso abrindo um paralelo com outro artista. Ainda mais porque os artistas de outras épocas só não eram tão mais populares porque não existiam essas ferramentas tecnológicas que possuímos hoje. Mas ela está falando de uma realidade de hoje, né?

Isso mesmo. Então não se pode contestar. Eu fico muito lisonjeada que ela diga isso. Marina é minha amiga querida. Eu me acho assim uma mulher fa-mo-sa. Em todo canto que chego as pessoas me reconhecem, seja pela altura, pelas pernas, pelo cabelo. Quando eu tô num lugar em que as pessoas não me reconhecem fisicamente porque estou de boné, se quero ser notada, eu digo: “Boa tarde!” Aí todo mundo: “Hã?!?” Isso é maravilhoso porque não é uma popularidade apenas de imagem. É do que me propus a dividir com as pessoas, a voz. Não sei se sou a cantora mais popular de todos os tempos, mas, que me acho popular, me acho muito.

Parte dessa popularidade se deve à sua personalidade? A não ser que seja tudo fingimento, você parece ser uma mulher espontânea, meio desbocada… Não dá pra ser fingimento. A besteira que você fala na sua casa eu falo em público.

Você não faz tipo? Não! Eu tenho 20 anos de carreira. Tenho uma relação muito intensa com o meu trabalho. Se eu começar a me policiar e a ser um personagem, vai dar uma merda gigantesca, vai ser gigantescamente horroroso.

Já faz algum tempo que você é uma cantora que circula bem entre figurões da música, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, a própria Marina… Eu lhe agradeço pelo elogio.

No entanto, 20 anos atrás, quando começou, você era basicamente uma cantora de axé, um gênero tido por muitos como brega e pouco sofisticado. Naquela época, você enfrentou preconceito? Quando comecei a cantar na Banda Eva, eu era uma menina. Eu estava muito alegre em poder fazer parte da banda, viajar, fazer música, para perceber qualquer forma de preconceito, seja pelo ritmo, seja pelo lugar. Eu não tinha essa noção. E tem mais: sempre fui muito resolvida com as coisas de que gosto. E não fico triste se você ouve o meu disco e não gosta ou simplesmente não se identifica com a música. É um direito seu. O que eu não acho um direito seu é não gostar e perpetuar isso de uma forma negativa. As opiniões têm de ser livres.

Se as opiniões são livres, por que não criticar? É o seguinte: eu nunca fui contrária a alguém dar uma opinião sobre o axé ou qualquer outro segmento quando se é perguntado ou quando se é um crítico de música. No entanto, gosto de saber que a pessoa está embasada para falar. Mas, na verdade, eu nunca percebi preconceito porque a vida inteira fui muito diversa no meu gosto musical.
Será que você simplesmente não deu bola para a questão do preconceito, embora ela existisse? Não é questão de dar bola. É que na prática as coisas funcionam de outra forma. Vejo muitas vezes as pessoas tentando rotular coisas que eu tenho feito quando substancialmente eu sou uma cantora de Carnaval. É o que gosto de fazer. Tudo o que fiz nesses 20 anos de carreira, uma carreira de êxito, foi com base no meu prazer de cantar. Mesmo com eventual exaustão física e mental, não consigo ficar longe do Carnaval, da música do lugar de onde vim. Seria uma tristeza pra mim. E veja bem: respeitar uma opinião é uma coisa, transformar essa opinião em um problema pra você é outra coisa. E não faço isso.

A crise no mercado fonográfico atingiu a sua carreira de alguma maneira?Honestamente, não. A minha renda substancial vem dos shows. Foi assim a vida inteira. Entendo que pode ter algum artista que enfrentou a crise, artistas que fazem menos shows, que vivem da composição. Há gente muito mais autoral do que eu. Mas toda crise tem aspectos positivos. Ela só surge quando um processo começa a se deteriorar e então surge outro. O lado positivo é o novo horizonte dos veículos de venda de música pela internet e pelo celular. Eu, por exemplo, tenho uma conta no iTunes e compro minhas músicas por aqui [mostra o celular]. Olha aqui o que está esperando baixar: Edu Lobo, Zizi Possi, Chico Buarque, Fátima Guedes, Nana Caymmi. Também tem Noel Rosa, Carlinhos Brown, Caetano, Gil, Roberta Sá, Rosa Passos…

Só música brasileira? Não, tem Michael Jackson, Jennifer Lopez, Shakira… Ai, socorro! Balão Mágico, Xuxa!

Os infantis também são seus? São para o meu filho. A gente brinca ouvindo. Enfim, eu baixo muitas músicas pelo iTunes. Além de prático, gosto da legalidade disso. E acho que é muito pequena a parcela de pessoas que gosta de viver na ilegalidade. Um single custa 2 reais. Piratear sai muito mais caro. Estamos buscando uma via de facilitação para todos os lados, o artista, os produtores, o público, e acho que estamos em um caminho promissor.

O jato está pousando, e eu não posso terminar esta Entrevista sem perguntar: quando você vai posar para a PLAYBOY? Você jura mesmo que o pessoal ainda tá com vontade?!?

Ôxe… Ô, gata… Eu acho linda a PLAYBOY, de verdade. Meu pai era consumidor, um leitor assíduo. Acho lindo ver a nudez feminina. Tenho várias amigas que já posaram, dou o maior apoio. Leona, quando me contou do convite, eu disse: “Faça. Você é uma atriz, uma mulher que lida com o próprio corpo com habilidade. Vá”. Ela fez um ensaio lindo. Mas eu não tenho essa desenvoltura, não me sairia bem numa foto nua.

Você faz ensaios sensuais em casa? Os ensaios que quero fazer tenho de botar efeito do Instagram, aí tenho de postar, e não dá. Sabe aquelas arvorezinhas que tem lá embaixo? Eu boto aquela árvore da sombra pra ficar escuro.

Ivete, não seja modesta. Não, gata. Nem remotamente falando eu penso em posar… Não tenho essa fantasia.

Então vamos fechar um ensaio para consumo interno? Meu consumo interno já é tão intenso, e você quer aumentar? Não tenho vontade. Tenho aquelas coisas de mulher, de me olhar no espelho e fazer cara sensual. Toda mulher faz isso. E, olhe, faça uma Entrevista bem linda. Ou vou dizer que não posei para a PLAYBOY porque não gostei da matéria [risos].

Fonte: www.playboy.abril.com.br


publicado por Fã Club Ivete Sangalo em CABO VERDE às 23:08 | link do post | comentar